Influência Nikkei no Tênis de Mesa Brasileiro
Enviado por FKotani em 25 | 11 | 2009 (2476 leituras)

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Nas colônias de imigrantes japoneses eram praticados diversos esportes, dentre os quais o tênis de mesa. De fato, a sua prática nas colônias foi um dos fatores determinantes para o surgimento de vários mesatenistas no país. Por exemplo, a primeira jogadora nikkei a alcançar projeção nacional, a sra. Emiko Takatatsu, começou a praticar tênis de mesa no "kaikan” (local de encontro) da colônia em que morava, em Vargem Grande Paulista, SP.
 
Como é a primeira a se destacar, vale a pena seguir seus passos para verificar quais fatores contribuíram para seu êxito no esporte. Em primeiro lugar, em sua casa já havia uma mesa de tênis para praticar, coisa rara no Brasil da década de 1950. Além disso, seu pai possuía revistas japonesas sobre tênis de mesa, sendo que o Japão nessa época era uma das potências emergentes nesse esporte. Também havia um professor de tênis de mesa na colônia

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Outro fator foi a sua participação nos Campeonatos Intercoloniais, organizados anualmente desde 1951 até hoje, que congregam mesatenistas nikkeis de diferentes regiões do país. Importante mencionar o nome do idealizador e organizador do torneio por muitos anos, o ex-jogador japonês Haruo Michida. Carismático, tinha uma afeição particular pelos jovens, para os quais distribuía doces e outros presentes. A primeira participação de Emiko nessa competição se deu aos 12 anos, em 1956. Nessa edição, perdeu a final para sua irmã Hiroko, que assim como o irmão Sussumu também jogava tênis de mesa. Alguns anos depois, em 1959, foi a sua vez de levar o troféu para casa. Ao longo da década de 1960 e até meados da de 1970 iria vencer muitas vezes o torneio.
 
O campeonato Intercolonial é sem dúvida um dos fatores para o desenvolvimento do tênis de mesa no país, porque sem ele os bons jogadores não seriam reconhecidos e premiados, possivelmente ficariam esquecidos em suas comunidades. De outro lado, ao receberem prêmios, medalhas e troféus, os atletas voltam felizes para casa, motivados a treinar mais para fazer melhor nas edições posteriores.  Praticamente todos os nikkeis que se destacaram no tênis de mesa brasileiro participaram e venceram essa competição.
 
Aos 13 anos, Emiko participa pela primeira vez de um campeonato paulista.  Numa das edições estava presente o sr. Gino Frioli, diretor do departamento de tênis de mesa da Sociedade Esportiva Palmeiras. Ele vê potencial nela, e resolve levá-la para a capital. No clube, treinavam os melhores mesatenistas brasileiros de então, Ubiracy Rodrigues (Biriba) e Alberto Kurdoglian (Betinho). Ressalte-se que não havia treinador na época; cada um treinava por sua própria conta. Assim, apesar de ter aprendido muito com eles, Emiko não era treinada por nenhum técnico. 

Emiko conquistou ao todo 6 títulos brasileiros, num período em que não havia regularidade nas disputas do torneio. Representou a seleção brasileira por 16 anos, formando ao lado de Nakma Cruz e Bartira Costa uma inesquecível seleção feminina. Participou de três mundiais: em 1963, em Praga (Tchecoslováquia), em 1973, em Sarajevo (Iugoslávia), e em 1975, em Calcutá (Índia). Nessas duas últimas edições, Ricardo Inokuchi também integrou a equipe brasileira. Mas sua grande contribuição ao tênis de mesa nacional foi ajudar o país a consolidar a hegemonia no torneio sul americano, iniciada em 1957, conquistando ao todo 15 medalhas de ouro, em diversas categorias, uma delas jogando com Ricardo Inokuchi, em 1974, na disputa de duplas mistas (ver foto de ambos, a primeira de cima para baixo).
 
Ricardo Inokuchi foi o primeiro nikkei homem a se destacar nacionalmente no tênis de mesa. Tem uma trajetória semelhante à de Emiko Takatatsu. Nasceu em 1955, em Duartina, SP. Teve o primeiro contato com o esporte aos 3 anos, por intermédio de seu tio Shigeru Kawai, que mais tarde seria seu treinador.  Com a morte do pai, a família decide se mudar para São Paulo. Lá, aos 9 anos, começa a praticar tênis de mesa no clube nikkei Piratininga.

Na disputa do torneio Gazeta Esportiva de 1967, o sr. José Monteiro, diretor do departamento de tênis de mesa do Corinthians, vê qualidades no menino, e propõe ao tio que Ricardo passe a treinar no Parque São Jorge. Com a proposta aceita, muda de clube mas não de técnico: continua sendo treinado pelo tio Shigeru Kawai. 
 
Em 1969, vence pela primeira vez o Campeonato Intercolonial, na categoria infantil masculina. Foi a primeira vitória de muitas que se seguiram, em diferentes categorias.

Teve a oportunidade de participar do campeonato mundial de 1973  (Sarajevo). Nessa época, já estava treinando em São Bernardo do Campo, que oferecia transporte e uma boa infra-estrutura aos jogadores. Em toda a carreira, conquista seis medalhas de ouro em campeonatos brasileiros. Mas são suas vitórias nos torneios sul-americanos que o consagraram: sem contar as vitórias na categoria por equipes, conquista ao todo 10 medalhas de ouro, sendo pentacampeão sul-americano no individual (1974, 1976, 1978, 1980, 1984), feito igualado somente por Cláudio Kano. No Pan-americano de 1983, realizado em Caracas (Venezuela), o primeiro em que o tênis de mesa era disputado, conquistou 3 medalhas, sendo 2 de ouro (duplas e por equipe) e 1 de prata (individual). Por fim, ajudou o Brasil a subir para a 2.ª divisão no mundial de 1984 (Japão), na equipe também integrada por Cláudio Kano.
 
Um grande fator para o desenvolvimento do tênis de mesa brasileiro foi o intercâmbio com países fortes no cenário mundial. E o primeiro país com o qual o Brasil estabeleceu relações foi o Japão, uma das forças do esporte desde a década de 1950. De fato, Ricardo Inokuchi foi o primeiro jogador brasileiro a fazer estágio no Japão. Em abril de 1979, ele e Jerônimo Vasconcelos embarcaram rumo à Terra do Sol Nascente para um estágio de 2 meses na Universidade Nichidai, em que disputaram partidas com equipes locais. A oportunidade surgiu da amizade feita por Ricardo com o sr. Mutsuo Kasahara, ex-mesatenista da seleção japonesa, vencedor de vários títulos na categoria duplas, que estava no Brasil representando a empresa japonesa Yashica. Kasahara ficou impressionado com a determinação e a perseverança da equipe brasileira em se aprimorar no tênis de mesa, e como achou que havia potencial nos jogadores, se dispôs a ajudar. Ele entrou em contato com o sr. Hiroshi Yaoita, que fora seu técnico e de outros campeões mundiais japoneses, como Toshiaki Tanaka, Ichiro Ogimura, e Tomi Okawa. Yaoita era então diretor do departamento de tênis de mesa da Nihon University, um dos centros de excelência no esporte, e também vice-presidente da Associação Japonesa de Tênis de Mesa. Sem dúvida, Kasahara e Yaoita foram os grandes responsáveis pelo estabelecimento do intercâmbio entre o tênis de mesa brasileiro e o japonês. No começo de 1980, Yaoita trouxe ao Brasil a equipe de tênis de mesa da Nihon University para uma série de apresentações, e aproveitou para conhecer melhor o nível do esporte no país.
          
Ricardo Inokuchi foi um líder e um exemplo para os jogadores mais jovens. A nova geração que começava a despontar, incluindo Cláudio Kano, Sandra Noda, Edson Fumihiro, Hugo Hoyama etc., tinha nele uma referência no esporte e na vida. 
 
Dessa nova geração, Cláudio Kano se destacou. Foi sem dúvida um dos maiores mesatenistas da história brasileira. Mas, sem tirar seus méritos pessoais, deve uma parte razoável do que conquistou às oportunidades abertas pelos que o antecederam.

Nascido em 1965, Cláudio teve o primeiro contato com o tênis de mesa em casa, aos 7 anos, quando os pais adquiriram uma mesa para jogar. Pouco antes de completar 9 anos, o pai Minoru decide levá-lo ao clube nikkei Showa, que preparava jogadores para participar do Intercolonial. Um ano depois, no seu primeiro Campeonato Intercolonial, ficou em 2.º lugar no individual mirim, depois de estar com o jogo praticamente ganho. Na hora da premiação, recebeu do sr. Haruo Michida o conselho de que a derrota não devia desencorajá-lo, apenas lembrá-lo de que o jogo nunca está ganho antes do fim. Atendendo ao apelo dos instrutores do clube Showa, a mãe de Cláudio o encaminhou ao clube Hebraica, onde eram técnicos Manoel Medina e Emiko Takatatsu. Em meados de 1977, antes de Cláudio completar 12 anos, Mutsuo Kasahara fez uma visita ao Hebraica e viu potencial no garoto. Dispôs-se a ajudar na sua formação e treinamento, com a autorização de seus pais e técnicos. Kasahara também indicou o garoto ao técnico da seleção paulista de tênis de mesa, Maurício Kobayashi, que reconheceu o seu talento e o convocou para disputar os campeonatos brasileiros na categoria infanto-juvenil. Depois, foi convocado pela primeira vez para defender o Brasil num torneio latino-americano, já com Maurício como técnico da seleção. Em 1980, com o fim do departamento de tênis de mesa do Hebraica, Cláudio passou a integrar a equipe de São Bernardo do Campo, comandada também por Maurício Kobayashi (ver foto de Ricardo Inokuchi, Maurício Kobayashi e Cláudio Kano, a segunda de cima para baixo).   
 
Maurício iria exercer um papel fundamental na formação de Cláudio Kano e de outros renomados mesatenistas, como Hugo Hoyama, Issamu Kawai, Silney Yuta, entre outros. Ele havia sido jogador de tênis de mesa, tendo participado da forte equipe de São Bernardo do Campo formada por ele, Ricardo Inokuchi e Tomohiro Yara. Entre 1973 e 1974, começou a se dedicar exclusivamente à carreira de técnico, buscando estudar e se desenvolver na área. Maurício acreditava muito no talento de Cláudio. Por isso, era bastante exigente e rígido nos treinamentos, fazendo o atleta se dedicar ao máximo e com total concentração para superar seus próprios limites.
 
No início de 1981, Cláudio parte para um estágio de um ano no Japão. Passa por um treinamento intensivo na Nihon University, aos cuidados de Hiroshi Yaoita. Lá, aprimora não só a parte técnica e física do esporte, mas também o aspecto espiritual, a formação do caráter e da moral, muito valorizada pelo Sr. Yaoita. A disciplina rígida e a hierarquia permeavam todos os aspectos dos treinamentos, o que exigia dos atletas muita dedicação, respeito às normas e obediência aos superiores. Na volta ao Brasil, a família de Cláudio fica espantada com a sua mudança: como pessoa, estava mais prestativo, maduro e com mais respeito e consideração pelos outros; no tênis de mesa, estava mais concentrado e decisivo nas jogadas, além de estar decidido a se tornar um mesatenista de alto nível.
 
Ao longo da carreira, Cláudio Kano conquistou 31 títulos nacionais. Obteve ao todo 21 medalhas de ouro em campeonatos sul-americanos, nas diferentes categorias (individual, por equipes, duplas masculinas e mistas). Integrou a equipe brasileira tetracampeã pan-americana em 1983, 1987, 1991 e 1995. É o segundo maior medalhista em jogos pan-americanos no tênis de mesa, atrás apenas de Hugo Hoyama, com 12 medalhas no total, sendo 7 de ouro, 3 de prata e 2 de bronze. Participou das olimpíadas de Seul (1988) e Barcelona (1992). Faleceu em 1996, aos 30 anos, num trágico acidente de moto, às vésperas de sua ida aos jogos olímpicos de Atlanta.

Depois da geração de Cláudio Kano e Hugo Hoyama, muitos outros mesatenistas de alto nível iriam surgir no país, entre os quais se destacam Lyanne Kosaka, Thiago Monteiro, Mônica Dotti, Hugo Hanashiro, Mariany Nonaka, Lígia Silva, Gustavo Tsuboi e Cazuo Matsumoto. Todos são de algum modo herdeiros de um legado para o qual muito contribuíram os personagens retratados neste artigo.

Agradecimentos:
à ajuda valiosa da sra. Emiko Takatasu, que prestou esclarecimentos e informações sobre sua vida e trajetória;
ao sr. Ricardo Inokuchi, que gentilmente respondeu às perguntas formuladas e cedeu a foto solicitada, apesar de ser uma pessoa muito ocupada;
à ajuda e paciência do sr. Keiti Sugimati, diretor do departamento de tênis de mesa do Nikkei Clube de Curitiba, que prestou muitos esclarecimentos e informações, e que emprestou dois livros muito importantes para a elaboração do artigo: “Ricardo Inokuchi, Exemplo de Garra e Humildade”, escrita pela esposa de Ricardo, Suely Inokuchi, e o livro “Cláudio Kano - A Trajetória de Um Campeão”, de Sílvio Nascimento.


Crédito das fotos
Jornal “A Gazeta Esportiva” – 13/04/1983

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