
Depois de vencer no último dia 04 de outubro a etapa de Hong Kong (China) do Circuito Mundial da FINA (Federação Internacional de Natação), Poliana Okimoto está com o título do torneio praticamente garantido. Restando apenas duas etapas a disputar, a atleta venceu 7 das 10 realizadas, e ficou com a 2.º colocação em 2 etapas, tendo acumulado até agora 176 pontos, 40 a mais que a segunda colocada, a também brasileira Ana Marcela Cunha. Ela só não pode ser considerada campeã por antecipação porque o regulamento do torneio diz que a nadadora tem que disputar a etapa final para ter direito ao título. Trata-se de um feito inédito para os esportes aquáticos brasileiros.
Poliana Okimoto, que até os 22 anos só competia em provas de piscina, começou a disputar maratonas aquáticas (em águas abertas) apenas no final de 2005, convencida pelo marido e técnico Ricardo Cintra. Mas já na primeira prova disputada, a “Travessia dos Fortes”, no Rio de Janeiro, surpreendeu a todos, inclusive a si mesma, e sagrou-se campeã, batendo o recorde da competição, com o tempo de 40m 50s. Segundo a atleta, “participei sem pretensão alguma, sem pensar em medalha, apenas para conhecer como era a maratona”. Com o ótimo resultado, sentiu-se confiante e começou a disputar todas as maratonas que podia em 2006, alcançando o primeiro lugar em várias travessias do Circuito Brasileiro. Mas o que a fez seguir definitivamente o caminho da maratona aquática foi a surpreendente conquista de duas medalhas de prata, no Mundial de Águas Abertas de Nápoles, em 2006, uma na prova de 5 km e outra na de 10 km. Segundo a nadadora, “todos ficaram surpresos ao ver uma brasileira no pódio”, já que “os sul-americanos nunca haviam obtido um bom resultado” na competição.
Nos jogos Pan-americanos de 2007, no Rio, a atleta perdeu a medalha de ouro para a americana Chloe Sutton por uma braçada apenas, ficando com a prata. Isso causou certa frustração, mas nada que tirasse sua alegria. Saiu das águas da praia de Copacabana emocionada, chorando lágrimas de felicidade e alívio. Poliana lembraria depois que, um ano antes do Pan, sofrera um dano no tímpano após receber uma cotovelada involuntária da nadadora russa Larissa Ilchenko (medalha de ouro em Pequim/08 e campeã mundial de 2004 a 2008 na modalidade 5 km). Por causa dessa contusão, ficou dois meses afastada das competições. Por isso, aquela medalha tinha para ela um significado de superação.
Mesmo com essa importante conquista, ao voltar ao país, Poliana enfrentou um problema inusitado, que a deixou bastante preocupada na época. Estava sem piscina para treinar, pois o local anterior fora transformado em um shopping. Essa situação perdurou por alguns meses. Nesse período, a atleta treinava na capital paulista, mas não estava satisfeita com isso. Até que finalmente conseguiu, graças a ajuda de políticos locais, um local de treinamento no SEST/SENAT (Serviço Social/Nacional do Transporte) da baixada santista, no litoral paulista.
Em 2008, Poliana Okimoto disputou as Olímpiadas de Pequim. Foi a sua primeira participação em olimpíadas, bem como foi a primeira vez que a maratona aquática era disputada em jogos olímpicos. Ficou em 7.º lugar, de um total de 25 competidores. A atleta mostrou depois um pouco de insatisfação com o resultado, pois esperava um desempenho um pouco melhor. Atribuiu o mau resultado ao fato de ter pouca experiência em maratonas aquáticas, comparada à de suas adversárias, algumas das quais com 10, 15 anos de prática nessa modalidade. No entanto, considerou muito importante e gratificante a experiência de participar de uma olimpíada.
Mesmo se esforçando e treinando diariamente para competir em alto nível na maratona aquática, a nadadora ainda consegue manter um bom desempenho em provas de piscina fechada, sobretudo os 800m livre, mostrando grande versatilidade. No último troféu José Finkel, por exemplo, um dos mais importantes torneios brasileiros, que aconteceu em setembro de 2009 em Palhoça/SC, Poliana quebrou o recorde brasileiro com o tempo de 08m 40s 05, superando sua própria marca anterior (08m 41s 58), de março de 2008.
Já em meados de 2009, no Mundial de Esportes Aquáticos de Roma, Itália, a atleta ganhou a medalha de bronze, com o tempo de 56m 59s 03, ficando atrás da australiana Melissa Gorman (ouro) e da russa Larissa Ilchenko (prata). Tornou-se com isso a primeira brasileira a conquistar uma medalha nessa competição. Além disso, quebrou um jejum de 15 anos sem medalhas para o Brasil nesse evento. Esses feitos foram muito comentados pela imprensa brasileira. O governador de São Paulo José Serra a recebeu pessoalmente e a parabenizou pela conquista.
Essas conquistas inéditas de uma atleta nikkei para a natação brasileira trazem à lembrança os feitos grandiosos do nadador Tetsuo Okamoto, muito admirado pelos amantes e conhecedores do esporte, que há quase 60 anos, em 1951, em Buenos Aires, ganhou as primeiras medalhas da natação brasileira em Pan-americanos (ouro nos 400m e 1500m livre, e prata no revezamento 4x200m livre), na primeira edição desse torneio. Só para avaliar a importância dessa conquista, a natação brasileira só iria subir novamente no lugar mais alto do pódio, nessa competição, em 1967, quando José Sylvio Fiolo venceu os 100m e os 200m nado peito; e depois disso, tivemos que esperar até 1983, no Pan-americano de Caracas, quando Ricardo Prado ganhou o ouro nos 200m e os 400m nado medley.
Mas a contribuição mais significativa de Tetsuo Okamoto foi a conquista da medalha de bronze nos jogos olímpicos de Helsinque, a primeira medalha olímpica da história da natação brasileira. Numa disputa emocionante, o brasileiro ficou apenas 2 centésimos de segundo à frente do quarto colocado, o americano Jim MacLane. Só para dar uma noção do significado desse feito, até 1984, quando o nadador Ricardo Prado conquistou a medalha de prata na prova de 400m medley, a natação brasileira obteve apenas mais 2 medalhas de bronze em jogos olímpicos, uma com Manoel dos Santos, nos 100m livre, na olimpíada de Roma (1960) e outra com a equipe de revezamento 4x200m, integrada por Jorge Fernandes, Marcos Mattioli, Cyro Marques, e Djan Madruga, nas olimpíadas de Moscou (1980).
(Foto: Satiro Sodré/CBDA)