
No último dia 27 de setembro, a sra. Yoko Nishi, instrumentista japonesa de renome internacional, mostrou na capital paulista, no encerramento do Encontro Anual da SBPN 2009 (Associação Brasil-Japão de Pesquisadores), todo o seu talento e habilidade na arte do koto, espécie de cítara horizontal de 13 cordas, tradicional em seu país. Ela apresentou o concerto Spirit of a Tree, que teve a participação especial do sr. Shen Ribeiro, músico brasileiro que domina a arte de tocar o shakuhachi, a tradicional flauta japonesa feita de bambu.
Contando com a presença de aproximadamente 160 espectadores, que se instalaram confortavelmente num auditório do Hotel Blue Tree Towers Faria Lima, a sra. Yoko Nishi apresentou um repertório diversificado, em que mesclava a execução de obras consagradas e tradicionais na primeira parte do espetáculo, com obras novas e modernas na segunda parte. No intervalo entre as duas partes, o sr. Shen Ribeiro fez uma apresentação solo.
Depois de devidamente apresentada, a sra. Yoko Nishi, trajada em um elegante quimono preto com desenhos de flores em cores rosas e suaves, abriu o concerto com as clássicas canções Sakura (Cerejeira) e Kojyo no Tsuki (O Luar do Castelo em Ruínas), tocadas em seqüência, sem intervalo, em arranjos feitos pelo sr. Tadao Sawai (1937 – 1997), renomado mestre de koto que foi professor da artista japonesa quando esta tinha apenas 12 anos. Conforme relata a própria Yoko Nishi, “são obras que exaltam, no caso da primeira, as emoções da passagem das estações do ano e, na segunda obra, o sentimento tipicamente japonês de ‘compaixão’, que é considerado belo”.
Em seguida, os dois músicos se uniram para executar a bela e famosa canção Haru no Umi (Mar de Primavera), uma das músicas japonesas mais consagradas de todos os tempos, num dueto magnífico de koto e shakuhachi. Segundo a sra. Yoko Nishi, a obra “reproduz o som suave do movimento das ondas do mar de Setonaikai, o som do vôo das gaivotas, e o som de remar dos barcos”. O compositor dessa música é o grande mestre Michio Miyagi (1894 – 1956).
E no final da primeira parte do concerto, a artista, em apresentação solo, tocou a tradicional obra Rokudan no Shirabe (Estudo em Seis Movimentos), composta no século 17 pelo mestre de koto Yatsuhashi Kengyo (1614 – 1685), a qual exige do músico, conforme relato da própria Yoko Nishi, o domínio de “quase todas as técnicas básicas de batida do koto (te)”, e por isso ainda hoje é usada nos testes de admissão em escolas especializadas.
Segundo avaliação da sra. Emi Kitahara, filha da sra. Tamie Kitahara (professora e instrumentista de koto japonesa que mora no Brasil desde os 12 anos, contribuindo há mais de 25 anos para a difusão da arte do koto no país), que assistiu ao espetáculo e que, assim como a mãe, tem o título de mestre pela escola Ikuta Seiha do Japão, a sra. Yoko Nishi demonstrou um ótimo domínio técnico do instrumento na execução dessas obras tradicionais, interpretando as peças com precisão.
Durante o intervalo, o sr. Shen Ribeiro executou a clássica obra Koku Reibo (Sino Ressoante no Céu Vazio), de profunda conotação religiosa, pois, segundo a tradição, ela foi composta por um monge zen chamado Kyochiku, depois de este atingir a iluminação espiritual. Trata-se de uma das peças mais importantes para shakuhachi, e também uma das mais difíceis de tocar, o que realça a aptidão do músico brasileiro. A música é caracterizada por um som bem peculiar, grave e um tanto rústico, mas de grande efeito sonoro.
Ao voltar do intervalo, a sra. Yoko Nishi estava de figurino novo: vestia agora um majestoso traje vermelho rosado, bem exuberante. Como observado pela sra. Emi Kitahara, as vestimentas usadas pela artista no concerto estavam adequadas à característica das músicas: assim, na primeira parte, o quimono estava em sintonia com as músicas tradicionais tocadas, e do mesmo modo na segunda parte.
Enquanto a primeira parte do concerto foi dedicada a obras tradicionais e conhecidas, a segunda parte foi dedicada a músicas novas e modernas, o que deu um bom equilíbrio ao espetáculo. E antes de tocar as músicas novas, desconhecidas para a maioria do público, a sra. Yoko Nishi fazia comentários e observações interessantes sobre elas, o que ajudava a platéia a apreciá-las melhor.
Dando prosseguimento ao espetáculo, a próxima música tocada foi Sazancross, que em português significa Cruzeiro do Sul. Composta pelo sr. Shingo Edo, trata-se, conforme palavras da sra. Yoko Nishi, de obra inspirada “no sentimento de atração pela constelação do Cruzeiro do Sul, que não pode ser vista do Japão”. Assim, como aqui é possível vê-la, a artista confessou que “a emoção de tocar essa obra no Brasil é grande”.
Na seqüência, na execução da música Shika no Uta (Canção do Cervo), uma obra muito pouco conhecida, já que sua primeira apresentação se deu somente em junho deste ano, o público teve a grata surpresa de ouvir a sra. Yoko Nishi cantar. Pois, além da música, composta pelo famoso pianista Yuji Takahashi, a obra também possui letra, escrita pelo poeta modernista Sadakazu Fujii, que narra a estória de um cervo lendário da localidade de Yumeno. Segundo a artista, a peça “reflete o período em que o canto e a narrativa se misturavam”. Conforme observação da sra. Emi Kitahara, que achou essa composição bem diferente do que está acostumada a ouvir, os sons criados pelo instrumento na obra servem de pano de fundo sonoro da narrativa, reproduzindo em dado momento o choro do cervo, em outro um som qualquer da natureza, e assim por diante. Para ela, o resultado final foi muito satisfatório.
Por fim, para encerrar a apresentação, a sra. Yoko Nishi tocou a música Gaku (Música), também composta pelo seu mestre Tadao Sawai. Conforme a artista, o tema da obra é a própria música e seu significado, os sons e como eles tocam o coração das pessoas de diferentes maneiras. Segundo ponderação da sra. Emi Kitahara, a obra tem um caráter moderno, pela sua combinação de sons e ritmos bem característicos. Também disse que há trechos da obra bem rápidos, em que a artista pôde mostrar bastante domínio técnico sobre o instrumento, e que dão à música um caráter alegre.
No encerramento da apresentação, o sr. Hirokazu Sasaki, diretor de assuntos internacionais e membro do conselho consultivo da SBPN (Associação Brasil-Japão de Pesquisadores), uma das entidades promotoras do espetáculo, agradeceu enfaticamente pela vinda e pela apresentação da sra. Yoko Nishi, que é uma artista mundialmente renomada e muito requisitada. Após o concerto, o sr. Sasaki citou o fato de ela ter se apresentado nos dois últimos encontros do Fórum Econômico Mundial, que acontece anualmente em Davos na Suíça, e o nome de alguns dos países nos quais já tem marcado apresentações a fazer, para avaliar a importância da instrumentista. Nesse contexto, ressaltou os esforços do sr. Heizo Takenaka, ex-ministro japonês do Interior e Comunicações e atual presidente do escritório da SBPN em Tóquio, que foi fundamental para a vinda da artista ao Brasil.
Após o fim do espetáculo, perguntado sobre como foi tocar com a sra. Yoko Nishi, o sr. Shen Ribeiro disse que “foi ótimo, uma oportunidade rara”. Disse também que ela trouxe um repertório novo, referindo-se às músicas da segunda parte do concerto, e que as achou “fantásticas”.
A platéia, formada por pessoas das mais diferentes idades, desde crianças e jovens até adultos, contou com a presença de alguns sensei muito estimados pela comunidade nikkei, como por exemplo o sr. Kokei Uehara, professor emérito da Escola Politécnica da USP e membro do conselho consultivo da SBPN, o sr. Seidi Hirano, professor do departamento de sociologia da USP, e o sr. Reimei Yoshioka, doutor em geografia humana pela USP e atual presidente do ISEC (Instituto de Solidariedade Educacional e Cultural), uma das entidades beneficiadas (junto com a Ikoi-no-sono, a Kibo-no-ie e a Kodomo-no-sono) com o valor arrecadado pelo espetáculo. Eles elogiaram enfaticamente a apresentação da sra. Yoko Nishi.