Por que algumas comunidades de origem japonesa são fechadas
Enviado por kawano em 20 | 07 | 2009 (5160 leituras)

(Texto de autoria de Carmen Kawano. Trecho de um artigo a ser publicado na Revista Inclusividade Número 16 (impressa), do Centro de Estudos Anglicanos da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil)


Essa questão tem muito a ver com a natureza dos japoneses e sua cultura, que inevitavelmente os descendentes herdaram, em pequenas ou grandes doses. Mas também não se pode desprezar a história da imigração japonesa nesse país. 

      É reconhecido que os japoneses, ao longo da história do Japão, não são pródigos em abrir sua cultura para as pessoas que não fazem parte dela. O exclusivismo é algo marcante na sociedade japonesa. Talvez esse fato seja decorrente dos longos períodos de fechamento dos portos japoneses e isolamento insular do país no decorrer de sua história. Por longos períodos, o governo impediu que houvesse contato entre a população japonesa e os estrangeiros. 


      A característica exclusivista do povo japonês pode ser visto quando uma família passa um período de alguns anos fora do país. Quando ela volta para o mesmo lugar de onde saiu, não é mais considerada exatamente japonesa. Além disso, quando um estrangeiro vai morar no Japão, principalmente na região de Tóquio, é comum as pessoas a sua volta procurarem diferenças entre elas e o novo vizinho, e não semelhanças. Dificilmente vão procurar semelhanças entre eles, o que poderia facilitar a aproximação e o fazer com que o estrangeiro se sinta mais em casa. 

      Por outro lado, a história da imigração japonesa no Brasil está  recheada de dificuldades e choques culturais. Não poderia ser diferente. Os dois países têm históricos e costumes completamente diferentes. Quando os imigrantes japoneses aqui encontraram uma realidade extremamente distante da que estavam acostumados, com hábitos, língua, valores muito diferentes, começaram a aparecer as inúmeras dificuldades de adaptação à nova terra e de relacionamento com o povo brasileiro. 

      Também no Brasil a postura de caráter exclusivista do povo japonês foi comum nos imigrantes. Mesmo aqui, os japoneses, e ainda hoje muitos descendentes, se referem ao não descendente como gaijin, que significa literalmente “pessoa de fora”. 

      É sabido que, até a Segunda Guerra, quase todos os imigrantes não tinham a intenção de viver para sempre no Brasil, ou adotar esse país como seu. As duras condições de vida e de trabalho na agricultura só contribuíam para aumentar o desejo de voltarem o quanto antes ao Japão. Assim, também não era interessante para eles o contato com os não japoneses, e a relação com a sociedade brasileira não estava em seus planos. A vida nas colônias só colaborava para aumentar o isolamento desses imigrantes. 

      Assim, os filhos dos japoneses também não eram incentivados a interagir com a sociedade brasileira. Porém, isso já não aconteceu com os netos dos japoneses, ou a terceira geração em diante. A derrota do Japão na Segunda Guerra colocou fim ao sonho dos imigrantes de voltarem ao país de origem. 

      Porém, o fato é que a política do governo imperial japonês com relação aos súditos que emigravam era bem diferente desse sonho de regresso à terra natal (DEZEM 2005). No contexto da situação de superpopulação no Japão, o governo japonês pensava a emigração para o Brasil como uma forma de aliviar as tensões sociais originadas pela Revolução Meiji (1866-1869), especialmente no campo. Com esse intuito, o Japão adquiria terras brasileiras e facilitava os títulos de propriedade para os que se dispunham a emigrar. Desta forma, o governo japonês pretendia a fixação dos imigrantes nesta terra e, portanto, não estava nos planos de Tóquio o regresso dessa população que era excedente no Japão. 

      Além disso, desde o fim do século XIX, o Japão adotou uma postura militar agressiva e de conquistas de territórios vizinhos. O país montou seu exército imperialista e passou a ocupar espaços pela Ásia, o que pode ser visto pela vitória do Japão na guerra russo-japonesa e suas conquistas na Manchúria. 

      Mesmo não cientes das estratégias governamentais, e almejando um dia retornar ao Japão, os imigrantes tinham a mentalidade imperialista embutida em si quando vieram a se estabelecer nas colônias, desde o início do século XX. Pelas imagens das colônias, registradas em fotografias tiradas principalmente em festividades como o dia do imperador e feriados nacionais japoneses, é fácil perceber a característica nacionalista e imperialista dos imigrantes que, mesmo aqui, continuavam a render culto ao imperador, com a bandeira do Japão hasteada. 

      Os imigrantes que chegaram até o início da Segunda Guerra cresceram e foram educados dentro do sistema imperialista japonês. Acreditavam que o governante do país tinha origem divina, e que o Japão nunca sofreria uma derrota. Isso explica a tendência conservadora de muitos nikkeis de segunda geração, filhos de imigrantes anteriores à Segunda Guerra. 

      No entanto, existe ainda outro fator importante a ser considerado quando buscamos as razões da característica fechada das comunidades anglicanas japonesas e nikkeis. E esse fator tem a ver com o modo como o Brasil recebeu a imigração japonesa no decorrer do tempo e como a sociedade brasileira viu e vê os japoneses e seus descendentes. 

      Nesse ano que passou, quando a imigração completou cem anos, além das festividades que marcaram a data, aconteceram muitas discussões e reflexões sobre a presença, influência e contribuição dos japoneses e seus descendentes no Brasil. E muitas publicações acadêmicas acerca da discriminação sofrida pelos imigrantes e pelos nikkeis foram destacadas. 

      A história da discriminação e repressão a partir do governo brasileiro com relação aos imigrantes japoneses e o tom pejorativo com que parte da imprensa e algumas publicações trataram essa população eram pouco conhecidos e pesquisados até há pouco tempo. E o sofrimento impingido a essa população foi abafado e silenciado, inclusive dentro da própria comunidade de japoneses e descendentes.
 
      Mas nos últimos anos, os dados e informações referentes aos atos do governo e da imprensa saíram dos arquivos para as teses e dissertações acadêmicas. Além disso, os textos e livros publicados por estudiosos brasilianistas também acabaram despontando em meio às discussões e reflexões sobre a imigração japonesa. 

      A discriminação, que acontece até hoje, manifesta através de estereótipos (OLIVEIRA 2008), acabou somando mais pontos à característica já fechada dos japoneses, fazendo com que estes e seus filhos se tornassem ainda mais inibidos e se juntassem como grupo, como uma forma de reação ou de defesa diante de um Estado repressor e dentro de uma sociedade em que eles não se sentiam confortáveis. 

      Lesser aborda a imigração de povos não europeus no Brasil – de origem árabe e asiática -, e como esses imigrantes buscaram definir sua posição dentro da identidade nacional, causando reações a essas tentativas (LESSER 2008). Com um enfoque especial na imigração de japoneses, traz, assim o tema da negociação da identidade nacional, onde políticos e intelectuais discutem a natureza dos asiáticos. Para a pergunta se a identidade nacional brasileira inclui os de ascendência não européia, a resposta é um sim condicionado. 

      Desde o evento da Proclamação da República, sob o clima do evolucionismo cultural, positivismo e ares republicanos, em um país que acabava de abolir a escravatura e queria “enbranquecer” a população, obviamente os asiáticos e médio orientais não eram bem-vindos. Em uma retrospectiva desde o fim do século XVIII sobre a imagem que se tinha dos japoneses, ou seja, mesmo antes destes começarem a chegar como imigrantes a este país, o autor descreve os debates entre políticos e intelectuais brasileiros sobre a aceitação ou não dos imigrantes japoneses. 

     Dezem analisa o preconceito contra os imigrantes japoneses e chineses no Brasil, procurando um entendimento do porquê de tal discriminação (DEZEM 2005). Faz um estudo do período Vargas, quando alemães, italianos e japoneses, dentro do território nacional, se tornam inimigos do Estado. 

      Já  na década de 30, intensificou-se a discussão do tema “perigo amarelo”. Em tempos de ascensão do sentimento de nacionalismo, havia intelectuais e políticos (e médicos eugenistas) que consideravam os imigrantes japoneses como uma ameaça à soberania nacional. Mas uma verdadeira repressão aos imigrantes e seus descendentes foi imposta em 1937 pelo Estado Novo ditatorial de Vargas. Mesmo antes da Segunda Guerra, os japoneses e seus descendentes sofriam sérias restrições em seus direitos neste país. 

      Segundo Dezem, o Estado Novo se preocupava com o que chamava de “espírito de brasilidade”, que deveria ser impregnado nos diferentes grupos étnicos existentes no Brasil. Este foi o período em que o discurso antinipônico atingiu o seu ponto mais alto no país. 

      Takeuchi descreve os discursos antinipônicos de líderes políticos e intelectuais que chegavam a se valer das conquistas do Japão e seu caráter imperialista expansionista como argumentos para provar que os imigrantes japoneses representavam uma ameaça à soberania nacional brasileira (TAKEUCHI 2008). Além disso, como os negros, os japoneses eram classificados por aqueles contrários à imigração e preocupados com a formação da nacionalidade brasileira como racionalmente e eugenicamente inferiores, psicologicamente desequilibrados, pertencentes a um grupo étnico não confiável, traiçoeiro e ainda não assimiláveis. 

      Além disso, a autora apresenta ilustrações e imagens publicadas no período Vargas sobre a população japonesa no Brasil, que revelam a formação de opinião e a construção de idéias deturpadas acerca desses imigrantes. 

      Neste clima de repressão e discriminação, inclusive de Estado, intensificam-se os isolamentos das colônias japonesas. Para Lesser (2008), os imigrantes tornaram-se mais japoneses como uma reação contra a ordem pública. O culto ao imperador era uma forma de se preservar a identidade desse grupo. 

      Desta forma, uma população que desde o início não tinha interesse em interagir com a sociedade brasileira passa a ser muito mais reclusa e fechada em si mesma, até em uma atitude de precaução e defesa.
 
      Com relação aos imigrantes posteriores à Segunda Guerra, estes provêm, na grande maioria, das cidades japonesas e não do campo, e, em geral, possuem, pelo menos, algum grau de qualificação técnica. Dependendo do ano em que deixaram o Japão, viveram diferentes situações de penúria ou dificuldades do pós-guerra. No entanto, em poucas décadas, perceberam, ainda neste lado do mundo, o seu país (Japão) se tornar uma potência econômica. Evidentemente as condições encontradas aqui e a imagem que se tinha do japonês já eram outras daqueles primeiros tempos passados da imigração. Pode-se dizer que eles desfrutaram da boa imagem do Japão mais recente.
 
O nikkei hoje  

      A grande maioria dos próprios nikkeis desconhece esse histórico da imigração, discriminação e repressão, que se mantinha arquivada e também abafada. Mas, mesmo quando se defrontam com essas informações, muitos nikkeis reagem negando qualquer tipo de discriminação sofrida no passado ou atualmente. Preferem continuar acreditando somente na “história oficial” contada nas festas comemorativas. Aqueles que se propõe a revelar e discutir a outra parte da história não são bem-vindos à comunidade festiva. 

      No entanto, toda aquela situação vivida no passado ainda repercute nas gerações atuais, assim como a forma como a sociedade brasileira vê  o nikkei hoje, influenciando o comportamento desses brasileiros. Hoje, pode-se dizer que o nikkei continua vivendo um problema de identidade. Seria como se sentisse flutuando, como uma rolha à deriva em alto mar, sem terra firme. Isso porque definitivamente não é japonês. Mas ao mesmo tempo, aqui no Brasil é assim denominado ou identificado. Ele não é totalmente aceito dentro da sociedade brasileira. 

      A questão é que o nikkei não é considerado como parte da matriz étnica formadora da sociedade brasileira, o tripé branco, negro e índio. E no Brasil, costuma-se identificar as pessoas pelo fenótipo ou pelas características externas ou físicas (OLIVEIRA 2008). Neste sentido, o fenótipo do nikkei o torna imediatamente excluído dessa matriz, podendo ser logo identificado como “diferente” dos outros brasileiros, o que é mais difícil acontecer com os brasileiros de origem árabe ou semita, também não-europeus. 

      Desta forma, não importa quantas gerações se passem no Brasil, o nikkei sempre será visto como, na melhor das hipóteses meio estrangeiro ou meio brasileiro. Nunca será aceito completamente como brasileiro. O ponto é que também muitos nikkeis até preferem ser identificados como japoneses, e querem ser japoneses. Mas existem os que desejam muito serem considerados absolutamente brasileiros. 

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